{"id":7616,"date":"2026-02-13T20:45:37","date_gmt":"2026-02-13T20:45:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/?p=7616"},"modified":"2026-02-13T20:45:38","modified_gmt":"2026-02-13T20:45:38","slug":"camilo-inteiro-no-ateneu-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/2026\/02\/13\/camilo-inteiro-no-ateneu-do-porto\/","title":{"rendered":"Camilo inteiro no Ateneu do Porto"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:30%\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p style=\"font-size:17px\"><strong>A Sala de Leitura do Ateneu Comercial do Porto recebe, at\u00e9 16 de mar\u00e7o, uma exposi\u00e7\u00e3o que mostra todas as obras de Camilo Castelo Branco \u2013 a maioria, primeiras edi\u00e7\u00f5es -, associando-se \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es do bicenten\u00e1rio do nascimento do escrito<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:70%\">\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Camilo Castelo Branco\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SEnOISovULk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Camilo Castelo Branco \u00e9 parte fundamental do \u00f3rg\u00e3o que enobrece e mant\u00e9m a pulsa\u00e7\u00e3o desta associa\u00e7\u00e3o, reposit\u00f3rio de alguns dos nacos mais distintivos dos \u00faltimos dois s\u00e9culos da cultura portuense: a biblioteca. No seu interior encontramos a \u201cCamiliana\u201d \u2013 um de dois espa\u00e7os dedicados exclusivamente a um escritor, a outra \u00e9 a \u201cCamoniana\u201d, de Lu\u00eds de Cam\u00f5es. Estamos perante um testemunho irrefut\u00e1vel de que o Ateneu do Porto percebeu muito cedo estar perante um dos g\u00e9nios da escrita portuguesa, j\u00e1 que, como comprova a ata da Dire\u00e7\u00e3o de 26\/03\/1889, a decis\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o deste espa\u00e7o exclusivo para coloca\u00e7\u00e3o das suas obras \u00e9 contempor\u00e2neo de Camilo Castelo Branco, ou seja, anterior \u00e0 sua morte. Este facto, por si s\u00f3, real\u00e7a a liga\u00e7\u00e3o entre o Ateneu e o escritor e justifica esta exposi\u00e7\u00e3o. Mas ele multiplica-se e chega \u00e0 apote\u00f3tica conclus\u00e3o que a \u201cCamiliana\u201d inclui todas(!) as obras reconhecidamente escritas por Camilo; incluindo as que foram assinadas por pseud\u00f3nimos ou mesmo an\u00f3nimas, para al\u00e9m de largas centenas de livros (biografias, ensaios, estudos\u2026) de alguma forma ligadas ao g\u00e9nio da escrita do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, futuro visconde Correia Botelho, nasceu em Lisboa, a 16 de mar\u00e7o de 1825, quando a irm\u00e3 Carolina Rita tinha quatro anos. A m\u00e3e morreu dois anos depois e o pai deixou os dois filhos \u00f3rf\u00e3os em 1835. Oriundos, do lado paterno, de uma fam\u00edlia de origem transmontana \u2013 conhecidos por \u201cBrocas\u201d -, as duas crian\u00e7as viajaram para Vila Real onde ficaram sob a tutoria da tia Rita Em\u00edlia da Veiga Castelo Branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Vila Real, Vilarinho de Samard\u00e3 e Ribeira de Pena foram palcos da adolesc\u00eancia de Camilo Castelo Branco, antes de se fixar no Porto, cidade que adotaria como sendo sua. A dedu\u00e7\u00e3o pode ser encontrada nas palavras de Augustina Bessa Lu\u00eds (\u2018Camilo. G\u00e9nio e figura\u2019): <em>\u201cEle era o que todos n\u00f3s sabemos, um Voltaire \u00e0 moda do Porto, com mais tripas do que carne do lombo\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Invicta, Camilo foi estudante na Escola de M\u00e9dico-Cir\u00fargica do Porto e tamb\u00e9m no Semin\u00e1rio Maior &#8211; quando, desiludido de amores, decidiu-se pela vida eclesi\u00e1stica -, mas em qualquer dos casos desistiu rapidamente. Foi nas letras que encontrou condi\u00e7\u00f5es para colmatar duas necessidades que lhe foram intr\u00ednsecas ao longo da vida: soltar o g\u00e9nio e ganhar dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A mescla dos dois fez nascer uma obra \u00edmpar na literatura portuguesa. A \u2018fraqueza\u2019 monet\u00e1ria tornou-o numa m\u00e1quina de produzir textos e o g\u00e9nio transformou-os em obras-primas. \u201cAmor de perdi\u00e7\u00e3o\u201d, rezam as cr\u00f3nicas, foi escrito em 15 dias na Cadeia da Rela\u00e7\u00e3o. Mesmo na condi\u00e7\u00e3o de detido, por for\u00e7a da rela\u00e7\u00e3o extraconjugal que mantinha com Ana Pl\u00e1cido \u2013 casada com Manuel Pinheiro Alves -, Camilo escrevia freneticamente. Como o fizera antes e faria muito mais depois. Foram cerca de centena e meia de romances, novelas, contos, ensaios, biografias e tudo o mais que se escrevia em pleno s\u00e9culo XIX, incluindo\u00a0 trabalhos para jornais, revistas ou at\u00e9 panfletos. A maioria das vezes assinando com o seu nome, mas tamb\u00e9m com pseud\u00f3nimos (cont\u00e1mos, pelo menos, uma vintena) e at\u00e9 sob o anonimato, sendo o seu nome mais tarde revelado.Sempre (ou quase) com olho no dinheiro. <em>\u201cGratuitamente n\u00e3o posso; bem sabes que n\u00e3o escrevo por prazer ou gl\u00f3ria\u201d<\/em>, escreveu quando se ofereceu a Jos\u00e9 Barbosa e Silva para colaborar no \u201cAurora do Lima\u201d. Fiel \u00e0 escola rom\u00e2ntica, pela qual se bateu, por vezes de forma contundente, perante o surgimento da escola realista, Camilo foi pol\u00e9mico na obra e na vida. Aquilino Ribeiro, em o \u201cRomance de Camilo\u201d, traduziu esta capacidade \u00fanica: <em>\u201cTinha o segredo do sarcasmo, o sarcasmo damasquinado e fulminante para o qual n\u00e3o havia r\u00e9plica que valesse. Com efeito, o seu esp\u00edrito primava na referta por uma causticidade que punha o advers\u00e1rio a escorrer sangue\u201d<\/em>&#8230;\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p>Nunca rejeitando uma boa pol\u00e9mica, Camilo nem por isso abrandava no ritmo da escrita. Depois de 1850, raro foi o ano em que n\u00e3o publicou uma ou mais obras, tornando-se num escritor de qualidade reconhecida e disputado por v\u00e1rios dos principais editores da \u00e9poca. \u00c9 tido como o primeiro \u201cprofissional\u201d a viver da escrita em Portugal. As tr\u00eas vitrinas da Camiliana que fazem parte desta exposi\u00e7\u00e3o demonstram a grandeza (em qualidade e quantidade) e fazem juz ao nome \u201cCamilo inteiro no Ateneu do Porto\u201d. Esta institui\u00e7\u00e3o reconheceu ainda em vida a genialidade do escritor e plasmou-o na ata em que decidiu criar-lhe um espa\u00e7o exclusivo na biblioteca: <em>\u201c&#8230; o mais fecundo e scintilante, o mais vern\u00e1culo e portuguez dos nossos escriptores vivos\u201d<\/em>.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, Camilo suicidou-se em Seide e seria enterrado no Cemit\u00e9rio da Lapa, no Porto. O Ateneu do Porto fez-se representar no funeral pelo secret\u00e1rio-geral, que fez parte do grupo de homens que transportou o caix\u00e3o para o jazigo onde ainda hoje repousam os restos mortais.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois da morte, a sede do Ateneu foi palco do primeiro evento dedicado ao autor, ao ser escolhida para o lan\u00e7amento de uma edi\u00e7\u00e3o especial e de luxo de \u201cO amor de perdi\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 patente nesta exposi\u00e7\u00e3o -, que haveria de decorrer ainda em 1890.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Compulsivo, irreverente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A irrever\u00eancia da escrita tinha correspond\u00eancia na forma como Camilo se posicionava no dia-a-dia. A rela\u00e7\u00e3o que iniciou com Ana Pl\u00e1cido, uma mulher casada igualmente irreverente, causou furor na habitualmente pacata sociedade portuense, pouco habituada a ver um casal (ainda por cima, ad\u00faltero) subir a Rua de Santo Ant\u00f3nio (hoje, Rua 31 de Janeiro) ambos fumando charuto. <em>\u201cCamilo era um homem desses, um vendaval, um ciclone do alfabeto, uma barafunda de pretextos para arrepiar os cabelos das fam\u00edlias na sala de baile\u201d<\/em>, escreveu Agustina Bessa Lu\u00eds sobre a vida de Camilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de muitas perip\u00e9cias, incluindo temporadas em Lisboa, mas sempre conclu\u00eddas com o regresso ao Porto, o casal haveria de \u2018normalizar\u2019, j\u00e1 depois de ter sido preso e o Tribunal ter considerado ambos inocentes (17\/10\/1861). Dois anos depois, em julho, Manuel Pinheiro Alves morre e o adult\u00e9rio, por consequ\u00eancia, acaba. E n\u00e3o s\u00f3: o herdeiro universal do marido de Ana Pl\u00e1cido \u00e9 o filho de ambos, Manuel Augusto, que vivia com a m\u00e3e, passando esta a administrar a fortuna do filho menor. Resultado: a fam\u00edlia, j\u00e1 com Camilo inclu\u00eddo, instalou-se em S. Miguel de Seide, na quinta que Manuel Augusto herdara, e onde tamb\u00e9m viveriam Jorge e Nuno, filhos de Camilo e Ana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mergulhar nos livros de Camilo Castelo Branco cedo se percebe que a grandeza da obra \u00e9 produto de um autor singular e t\u00e3o entusiasmante quanto o produto do seu trabalho. Esta constata\u00e7\u00e3o justifica as duas esculturas desta exposi\u00e7\u00e3o, \u201cUm escritor compulsivo\u201d e \u201cA ac\u00e1cia do Jorge\u201d, respetivamente, da autoria de Maria Jos\u00e9 Brito e Rui Paiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho incans\u00e1vel est\u00e1 expresso na est\u00e1tua \u201cpresa\u201d \u00e0 mesa, com a pena na m\u00e3o, sempre pronta para escrever mais umas letras. A forma compulsiva como exercia a profiss\u00e3o est\u00e1 tamb\u00e9m ligada \u00e0 ironia e ao sarcasmo que usava de forma \u00fanica. Aquilino Ribeiro explica a sua natureza, que chega a ser paradoxal: <em>\u201cNasceu esp\u00fario, e a macaca da mais feia sina era cong\u00e9nita nele como uma geba. Tudo que fizesse era achacado dessa monstruosidade. Menos em arte. A pena, como uma varinha de cond\u00e3o, resgatava-o transitoriamente do miserando fado\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ac\u00e1cia do Jorge\u201d remete-nos para este Camilo ao mesmo tempo brilhante e rude, genial e explosivo no remoque a quem o enfrentava. A ac\u00e1cia, de resto, n\u00e3o era uma ac\u00e1cia. Era uma rob\u00ednia. Mas Camilo conheceu-a como Ac\u00e1cia. Foi plantada pelo seu filho Jorge (que tinha problemas mentais) e cresceu de tal forma que os ramos batiam nos vidros da janela do escrit\u00f3rio onde o escritor trabalhava. E ele n\u00e3o gostava, mas nunca deixou que a cortassem porque era \u201ca ac\u00e1cia do Jorge\u201d, como se estivesse perante uma demonstra\u00e7\u00e3o eterna do seu amor ao filho. <em>\u201cQuando a ac\u00e1cia do Jorge uma vez mais enflore, chamai-me, que eu voltarei\u201d<\/em>, escreveu Camilo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Fernando Rola<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Sala de Leitura do Ateneu Comercial do Porto recebe, at\u00e9 16 de mar\u00e7o, uma exposi\u00e7\u00e3o que mostra todas as obras de Camilo Castelo Branco&#8230;<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":7583,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[117],"tags":[],"class_list":["post-7616","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7616","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7616"}],"version-history":[{"count":35,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7616\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7652,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7616\/revisions\/7652"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7616"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7616"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ateneucomercialporto.pt\/en_en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7616"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}