Camilo inteiro no Ateneu do Porto

A Sala de Leitura do Ateneu Comercial do Porto recebe, até 16 de março, uma exposição que mostra todas as obras de Camilo Castelo Branco – a maioria, primeiras edições -, associando-se às comemorações do bicentenário do nascimento do escrito

Camilo Castelo Branco é parte fundamental do órgão que enobrece e mantém a pulsação desta associação, repositório de alguns dos nacos mais distintivos dos últimos dois séculos da cultura portuense: a biblioteca. No seu interior encontramos a “Camiliana” – um de dois espaços dedicados exclusivamente a um escritor, a outra é a “Camoniana”, de Luís de Camões. Estamos perante um testemunho irrefutável de que o Ateneu do Porto percebeu muito cedo estar perante um dos génios da escrita portuguesa, já que, como comprova a ata da Direção de 26/03/1889, a decisão de criação deste espaço exclusivo para colocação das suas obras é contemporâneo de Camilo Castelo Branco, ou seja, anterior à sua morte. Este facto, por si só, realça a ligação entre o Ateneu e o escritor e justifica esta exposição. Mas ele multiplica-se e chega à apoteótica conclusão que a “Camiliana” inclui todas(!) as obras reconhecidamente escritas por Camilo; incluindo as que foram assinadas por pseudónimos ou mesmo anónimas, para além de largas centenas de livros (biografias, ensaios, estudos…) de alguma forma ligadas ao génio da escrita do século XIX.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, futuro visconde Correia Botelho, nasceu em Lisboa, a 16 de março de 1825, quando a irmã Carolina Rita tinha quatro anos. A mãe morreu dois anos depois e o pai deixou os dois filhos órfãos em 1835. Oriundos, do lado paterno, de uma família de origem transmontana – conhecidos por “Brocas” -, as duas crianças viajaram para Vila Real onde ficaram sob a tutoria da tia Rita Emília da Veiga Castelo Branco.

Vila Real, Vilarinho de Samardã e Ribeira de Pena foram palcos da adolescência de Camilo Castelo Branco, antes de se fixar no Porto, cidade que adotaria como sendo sua. A dedução pode ser encontrada nas palavras de Augustina Bessa Luís (‘Camilo. Génio e figura’): “Ele era o que todos nós sabemos, um Voltaire à moda do Porto, com mais tripas do que carne do lombo”.

Na Invicta, Camilo foi estudante na Escola de Médico-Cirúrgica do Porto e também no Seminário Maior – quando, desiludido de amores, decidiu-se pela vida eclesiástica -, mas em qualquer dos casos desistiu rapidamente. Foi nas letras que encontrou condições para colmatar duas necessidades que lhe foram intrínsecas ao longo da vida: soltar o génio e ganhar dinheiro.

A mescla dos dois fez nascer uma obra ímpar na literatura portuguesa. A ‘fraqueza’ monetária tornou-o numa máquina de produzir textos e o génio transformou-os em obras-primas. “Amor de perdição”, rezam as crónicas, foi escrito em 15 dias na Cadeia da Relação. Mesmo na condição de detido, por força da relação extraconjugal que mantinha com Ana Plácido – casada com Manuel Pinheiro Alves -, Camilo escrevia freneticamente. Como o fizera antes e faria muito mais depois. Foram cerca de centena e meia de romances, novelas, contos, ensaios, biografias e tudo o mais que se escrevia em pleno século XIX, incluindo  trabalhos para jornais, revistas ou até panfletos. A maioria das vezes assinando com o seu nome, mas também com pseudónimos (contámos, pelo menos, uma vintena) e até sob o anonimato, sendo o seu nome mais tarde revelado.Sempre (ou quase) com olho no dinheiro. “Gratuitamente não posso; bem sabes que não escrevo por prazer ou glória”, escreveu quando se ofereceu a José Barbosa e Silva para colaborar no “Aurora do Lima”. Fiel à escola romântica, pela qual se bateu, por vezes de forma contundente, perante o surgimento da escola realista, Camilo foi polémico na obra e na vida. Aquilino Ribeiro, em o “Romance de Camilo”, traduziu esta capacidade única: “Tinha o segredo do sarcasmo, o sarcasmo damasquinado e fulminante para o qual não havia réplica que valesse. Com efeito, o seu espírito primava na referta por uma causticidade que punha o adversário a escorrer sangue”… 

Nunca rejeitando uma boa polémica, Camilo nem por isso abrandava no ritmo da escrita. Depois de 1850, raro foi o ano em que não publicou uma ou mais obras, tornando-se num escritor de qualidade reconhecida e disputado por vários dos principais editores da época. É tido como o primeiro “profissional” a viver da escrita em Portugal. As três vitrinas da Camiliana que fazem parte desta exposição demonstram a grandeza (em qualidade e quantidade) e fazem juz ao nome “Camilo inteiro no Ateneu do Porto”. Esta instituição reconheceu ainda em vida a genialidade do escritor e plasmou-o na ata em que decidiu criar-lhe um espaço exclusivo na biblioteca: “… o mais fecundo e scintilante, o mais vernáculo e portuguez dos nossos escriptores vivos”.

No ano seguinte, Camilo suicidou-se em Seide e seria enterrado no Cemitério da Lapa, no Porto. O Ateneu do Porto fez-se representar no funeral pelo secretário-geral, que fez parte do grupo de homens que transportou o caixão para o jazigo onde ainda hoje repousam os restos mortais.

Pouco depois da morte, a sede do Ateneu foi palco do primeiro evento dedicado ao autor, ao ser escolhida para o lançamento de uma edição especial e de luxo de “O amor de perdição” – patente nesta exposição -, que haveria de decorrer ainda em 1890.

Compulsivo, irreverente

A irreverência da escrita tinha correspondência na forma como Camilo se posicionava no dia-a-dia. A relação que iniciou com Ana Plácido, uma mulher casada igualmente irreverente, causou furor na habitualmente pacata sociedade portuense, pouco habituada a ver um casal (ainda por cima, adúltero) subir a Rua de Santo António (hoje, Rua 31 de Janeiro) ambos fumando charuto. “Camilo era um homem desses, um vendaval, um ciclone do alfabeto, uma barafunda de pretextos para arrepiar os cabelos das famílias na sala de baile”, escreveu Agustina Bessa Luís sobre a vida de Camilo.

Depois de muitas peripécias, incluindo temporadas em Lisboa, mas sempre concluídas com o regresso ao Porto, o casal haveria de ‘normalizar’, já depois de ter sido preso e o Tribunal ter considerado ambos inocentes (17/10/1861). Dois anos depois, em julho, Manuel Pinheiro Alves morre e o adultério, por consequência, acaba. E não só: o herdeiro universal do marido de Ana Plácido é o filho de ambos, Manuel Augusto, que vivia com a mãe, passando esta a administrar a fortuna do filho menor. Resultado: a família, já com Camilo incluído, instalou-se em S. Miguel de Seide, na quinta que Manuel Augusto herdara, e onde também viveriam Jorge e Nuno, filhos de Camilo e Ana.

Ao mergulhar nos livros de Camilo Castelo Branco cedo se percebe que a grandeza da obra é produto de um autor singular e tão entusiasmante quanto o produto do seu trabalho. Esta constatação justifica as duas esculturas desta exposição, “Um escritor compulsivo” e “A acácia do Jorge”, respetivamente, da autoria de Maria José Brito e Rui Paiva.

O trabalho incansável está expresso na estátua “presa” à mesa, com a pena na mão, sempre pronta para escrever mais umas letras. A forma compulsiva como exercia a profissão está também ligada à ironia e ao sarcasmo que usava de forma única. Aquilino Ribeiro explica a sua natureza, que chega a ser paradoxal: “Nasceu espúrio, e a macaca da mais feia sina era congénita nele como uma geba. Tudo que fizesse era achacado dessa monstruosidade. Menos em arte. A pena, como uma varinha de condão, resgatava-o transitoriamente do miserando fado”.

“A acácia do Jorge” remete-nos para este Camilo ao mesmo tempo brilhante e rude, genial e explosivo no remoque a quem o enfrentava. A acácia, de resto, não era uma acácia. Era uma robínia. Mas Camilo conheceu-a como Acácia. Foi plantada pelo seu filho Jorge (que tinha problemas mentais) e cresceu de tal forma que os ramos batiam nos vidros da janela do escritório onde o escritor trabalhava. E ele não gostava, mas nunca deixou que a cortassem porque era “a acácia do Jorge”, como se estivesse perante uma demonstração eterna do seu amor ao filho. “Quando a acácia do Jorge uma vez mais enflore, chamai-me, que eu voltarei”, escreveu Camilo…

Fernando Rola

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